sexta-feira, 29 de junho de 2018

Atado

A batalha com o sono foi dura, esta noite… Voltas e mais voltas na cama e a cabeça não para de trabalhar!
Naveguei por águas agitadas, ventos revoltos e um verdadeiro ciclone de emoções. Acordei desgastado, de remar contra a maré, contra o vento e contra o subconsciente.

Talvez só precisasse dum abraço de conforto… talvez… Embora saiba que o meu abraço seria bem mais importante para alguém que nada tem.
A vida vai passando, ao longe, não se avistam melhores dias. A esperança vai-se perdendo, as forças começam a faltar e com ela, a vontade de acordar no dia seguinte.
Fecho-me no quarto, vendo passar na minha cabeça - repetidamente - o filme duma tempestade sem fim… não se vê bonança lá ao longe… não se vê esperança nem futuro!

Querendo eu acreditar que há uma vida melhor depois desta, não posso esquecer onde estou, o que cá faço e para onde vou.
Escasseia o tempo, o barco já vai longe e o fim está próximo… ao fundo, o horizonte, imenso, vazio e sempre sem esperança.

Espero que o futuro reserve surpresas boas, que devolva a paz interior e que me traga a terra firme, pois as forças para remar estão a desvanecer-se e continuo "sem pé" onde me apoiar.
Filipe Tiago Araújo, 29.06.2018

quinta-feira, 22 de março de 2018

Discretamente

Lá estavas tu, à hora marcada, tal como tínhamos combinado. Do outro lado, discretamente, olhavas em busca do meu olhar... eu já te tinha visto mas sem nunca te ver, pois tudo era discretamente.

A ocasião não era propicia ao encontro. O relógio avançava o tempo e o propósito ficaria adiado...

Por fim, aconteceu! Estavas ali, de poucas palavras, olhar azul-céu, de pele branca e avermelhada quando a timidez batia à porta.

O combinado ficara para mais tarde e realizara-se, de facto.
Entretanto, alguns meses se passaram. Com boas memórias, más experiências e um coração que voltou a palpitar, anos depois.


Bate como já bateu antes... Estrondoso, quente, impulsivo e "doente"!
Uma "cura" que demorou anos a moldá-lo de gelo, num ápice se desfazia em água de suor do corpo de ambos. Esse sentimento insano que deixei que crescesse sem querer deixar crescer, vai-me laminando aos poucos, como outrora fez.

Não há um só momento em que não pense em ti e, nessas recordações, as discussões feias sem razão de ser mas que o coração impulsivo fazia ir à luta.
Bem lá no fundo, creio ou quero acreditar que nutras algum tipo de sentimento por mim... essa é a verdade! Mas tudo se desvanece quando penso no sítio em que nos conhecemos e o que mais possa sair dali.

Gostava que um dia, abertamente, pudesses colocar tudo o que pensas "cá para fora", sem guardares para ti e deixando-me no vácuo todas as vezes que algo de menos bom acontece.

Sei que te perdi sem mesmo nunca te ter tido, embora - a espaços - te fosse tendo num abraço apertado ou num beijo caloroso debaixo de um lençol, onde o teu mundo se juntava com o meu.

Tenho saudades do que eramos, que nunca fomos, que sempre seremos! Desta confusão esclarecida para ambos que o tempo e a convivência tratou de baralhar.
Eu gosto de ti e assim gostava de continuar de gostar.


Filipe Tiago Araújo, 22 de Março de 2018

segunda-feira, 29 de maio de 2017

"Sempre"

Ele batia forte e esperançoso, como sempre bateu... Aproximava-se a hora e os pulos, acelerados e intermitentes, desse coração que sempre bateu forte e apaixonadamente por ti, sofria de ânsia e desejo de te ver, uma vez mais.

Eu parecia aquela criança - já homem feito - que em tempos te esperava todos os dia para ver-te como se fosse sempre a primeira vez... e, todas as vezes são, de facto, a primeira vez!
Já não me pertences, é certo, mas sempre me pertencerás, é sabido.

Os meus olhos não te conseguem mentir... e é tão bom saber que consegues (ainda) ler os meus olhos... não sendo eles como todos os outros, porque são meus, mas serão sempre teus assim como o meu coração te jurou eternidade de amor.
Quando te vi, depois duma espera de algumas horas, senti a mesma sensação que sinto cada vez que te vejo... sensação mista de vazio, de amor, de saudade, de distância. Contudo, os teus olhos são como os meus, diferentes de todos os outros mas sempre meus.
Horas de espera valeram por 15 minutos, não uns 15 minutos quaisquer! Mas uns 15 minutos passados contigo, ainda que o assunto não fossemos nós, porque já não há um "nós" que, no final, sempre haverá... tudo valeu a pena.
No final, o meu Eu que bate forte - como sempre bateu - por ti, implorava um abraço, um carinho ligeiro e discreto que fosse, um toque. O teu Eu, diferente do meu mas com a mesma vontade, abraçou-me num longo abraço de poucos segundos como se de uma despedida definitiva se tratasse, deixando a incógnita na minha alma toda ela cheia de certezas que não está certa de nada.
O teu "amor eterno" do final da mensagem na viagem de regresso a casa, foi o conforto que encontrei para que a despedida total não magoasse tão frágil coração que sempre continuará a bater por ti.
A palavra "Sempre" aparece a cada parágrafo deste curto texto de extensas memórias, porque para sempre é o amor que continuarei a ter por ti.


Filipe Tiago Araújo
29.05.2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017


Já vi muitos como eles...
Conheço muitas como elas...

Na verdade vivo entre eles e elas.

Eles olham-se, disfarçadamente.
Mais do que mil palavras naqueles olhares cúmplices e faladores...
Elas dão a mão na rua, como as melhores amigas.
Na realidade, elas gostam-se e não têm medo.

Eles ficam-se pelo toque do olhar, imaginando o momento...
Elas olham-se com as mãos, à descoberta de novas sensações.

Verdadeiramente, tanto eles como elas, amam-se.

Sofrem o dobro, vivem pela metade, mas amam como ninguém!
Eles vão extremo... suicidam-se com o desespero...
Bulling físico e verbal, facadas na alma e aquele olhar, que outrora era amor,
hoje é vazio e penoso... a sociedade não aceita que dois corações batam em formato de um.

Elas são valentes... valentia ou mente suja dos "normais"?
Contudo, elas lutam, aceitam-se e vivem.

Eles, não consegue unir laços com amigos e família...
A única ponte que os unirá é a perda! Atiram-se e atingem a liberdade deles e o sofrimento dos outros.
Cobardia? Coragem? ... Desespero, apenas.

Os corações batem. Tanto o deles, como o delas...
Batem, pois! São humanos e, como qualquer ser humano, sentem.

"São especiais!", dizem.
Tanto eles, como elas são mesmo especiais... acreditem!


Filipe Tiago Araújo, 18.02.2017

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Viver sem ar...

Todos os dias à noite, sempre que leio a tua carta digital de nove páginas, fico a sentir-me a pior pessoa do mundo. Não por aquilo de que me acusas, mas sim por interpretar cada frase, cada letra que foi escrita, com o rancor, a raiva, a frustração e o desespero com que as escreveste. Não quero com isto dizer que não tenhas razão... tens! Aliás, ninguém me conseguiu "ler" tão bem como tu o fizeste naquela carta. Cada palavra dói.
É por doer e fazer mossa que não deixo de a ler todos os dias antes de me deitar...
Foste a pessoa mais inteligente com quem me cruzei, sem qualquer dúvida. O carinho que me deste das vezes que estivemos juntos é inigualável! Isto para não falar da noite especial que foi quando te conheci... naquela data, não há um ano, um momento em que não me lembre de ti.
Aqui, em Portugal, ainda está a passar a novela I Love Paraisópolis... tem lá um personagem que me lembras tu, então não perco um episódio sempre na esperança de "te" ver. Aquele teu Brasil que também poderia ter sido o meu mas sem nunca o ser... saudades tuas.
Saudades das expressões "bundão", "bonitxinho", "amor, não dá pum não!" e até do sotaque Curitibano, do enrolar das palavras, tenho saudade.
Um dia, disse-te - e muito bem - que no meu blog só estavam lá escritas coisas que me marcaram... amores, desamores, pensamentos e desabafos... "culpaste-me" de nunca ter escrito nada sobre nós, ou seja, que não tinhas significado nada para mim. Não é verdade, aqui está a prova. Pode ter demorado, tempos infinitos, mas escrevo-o com gosto das memórias passadas contigo... da tua ternura, da tua ansiedade, dos teus beijos e do teu toque.
Não escrevo por descargo de consciência, não! Escrevo porque estarei imensamente arrependido de não ter dado o devido valor a quem tudo fez por mim e que chegou a abdicar do país natal para ficar comigo.
Sempre senti que eras a tal pessoa que me podia dar mais do que aquilo que me deram até hoje (e o que me deram, foi bom), sinto que podia ser mais.
Encho-me de orgulho do teu prémio em Milão... da tua dedicação ao que gostas de estudar e trabalhar, da tua maturidade e da fé que eu não tenho em Deus. Talvez os nossos caminhos se voltem a cruzar, não sei.
Este texto só faz sentido ser lido ao som de Mana, Vivir Sin Aire, título de tudo isto que te escrevo, com saudade, pena e em formato de desculpas.
Espero-te bem... 

Filipe Tiago Araújo  

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O Grito duma Nação!

Portugal,10 de Julho de 2016...


A cidade de Valença do Minho desperta bem cedo e um longo dia se avizinha. Manhã de sol, dia bonito e a leve brisa conduz-nos até Bragança... Trás-os-Montes, onde o dia se inicia bem quentinho e o vento fraco nos leva até Braga, passando por Guimarães, correndo por Vila Real, Guarda e a tarde vai-se instalando e com ela já um pouco de ansiedade de um dia importante.

Almoçamos no Porto, comemos a sobremesa em Aveiro, passeamos por Coimbra e Castelo Branco, sem nunca esquecer Mirandela e Vilar Formoso... A tarde vai passando a velocidade de um relâmpago e, num ápice, estamos a lanchar em Lisboa. 
Com bastante pressa, vamos a Évora, corremos Beja e a voar estamos em Faro a petiscar algo. São 20h e à hora do apito inicial, encontramos-nos em Vila Real de Stº António, com o pensamento na Madeira e nos Açores, que lá ao longe, já roíam as unhas como todo um continente.

Um país parado, onde até os ladrões fizeram pausa durante 120 minutos, para ver o orgulho nacional a guerrear como se da batalha de Aljubarrota se tratasse! 
Na noite que tinha que ser nossa, fazia-se dia em Timor, a tempo de ver as lágrimas de ouro do nosso capitão que sairia do campo de batalha muito cedo... Paramos! Paramos todos! 11 milhões e mais alguns... quase que "deitamos a toalha ao chão" e, aquele dia que começou lindo em Valença e terminava em Vila Real de Stº António com muita esperança, parecia desvanecer-se com a dor no joelho do Cristiano.

Eles, lá bem distante, tinham os canhões todos apontados ao nosso Patrício que, valente e quase imortal, ia segurando as bombas com as mãos de ferro.
Raphäel, o verdadeiro Guerreiro, lançou um rocket que fez mossa no travessão do Lloris, o napoleónico capitão gaulês. A terra estremeceu! Foram mais de 11 milhões aos pulos, mas era falso alarme.
Aguentamos e aguentamos... O que eles não sabiam é que, mesmo sem o nosso Comandante, nós tínhamos uma arma secreta, daquelas que mais ninguém tem! O Patinho Feio, com a força de Eusébio, Camões e Amália e também de todos nós, disparou a bala mais importante da vida de todos nós e, para além de aniquilar o inimigo, fez explodir de alegria um país inteiro. "Éder! Éder! Éder!", era o som das vozes da RTP, Antena 1, TSF e Renascença... O grito mais lusitano de sempre! As lágrimas mais puras que há na vida e o sentimento mais belo do mundo... o de ser português!
Choramos abraçados ao desconhecido "conhecidamente" português que estava ao nosso lado a ver a bola... Chorou Valença, a roçar a Espanha, chorou Mirandela, Vilar Formoso, Odemira, Vila Real de Stº António, Açores, Madeira e um país inteiro que encheu praças, alamedas e avenidas... chorou Paris, Díli, Macau, Canadá, Suiça, Luxemburgo, Alemanha, EUA e desconfio que até no Bangladesh se derramaram as lágrimas da felicidade e de Portugal... em qualquer sítio onde haja um português, a festa era garantida!
Festejaram os que nos tiram tudo diariamente, desde o BE ao CDS/PP, os médicos nas urgências, a PSP, GNR, os ladrões, os advogados (vai dar quase ao mesmo), os reclusos, os padeiros, pasteleiros, lixeiros, empresários, desempregados, pretos, brancos, ciganos... tudo o que é e se sente português, tocou o céu.

10 de Julho de 2016, data que fica para a história... Portugal é Campeão da Europa de futebol!
Obrigado, muito obrigado!




Filipe Tiago Araújo

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Alzheimer

Acordei como se fosse a primeira vez.
Olhei em redor e tudo me pareceu tão estranho e vazio... vazio de sentimentos, de espaço e de memória.
Seria uma autêntica tragédia se um dia acordasse e não me recordasse de ti! O que te dei, o que me deste, o que vivemos e o que vivi sem ti. 
Despertar e imaginar que não te chamo mais de amor ou que um dia tive um, seria como estar numa cama de hospital, a vegetar, à espera da minha hora. Talvez nada sentisse, talvez de nada (mesmo) me lembrasse... talvez.
Contudo, fecharia novamente os olhos na esperança de te encontrar no sonho mais profundo da minha alma e, por mais que o Alzheimer me apagasse a memória, jamais me esqueceria de ti... não há nada mais forte do que um coração puro e sincero, cheio de amor que dei e que recebi.
Podia até não reconhecer a casa onde morasse, as fotografias que visse, os relatos que invocassem à memória seletiva, mas uma coisa é certa, os teus olhos, o perfume da tua pele e cada curva do teu corpo eu jamais deitaria fora da minha cabeça!
O não me lembrar de muitas coisas, ajudaria a atenuar a dor daqueles que partiram e que deixaram saudades... bendito Alzheimer nessas alturas, pensaria eu ou... talvez não pensasse em nada.
Quem sou? Quem são vocês? Onde estou? O que faço aqui? ... Perguntas e mais perguntas!
O chip foi desligado, a vida virou merda e o sentido das coisas já não faz sentido. O silêncio vazio das memórias ocupa o espaço, agora opaco, deixado pela mente. Nada se situa, tudo ficou no esquecimento obrigatório, próprio da doença daqueles que não sabem quem são.
Não estou numa cama de hospital a vegetar... estou de olhos abertos a enfrentar o mundo com a nova dificuldade que este me colocou. Vejo, ouço mas não reajo! Castigo de Deus? Não sei... talvez sim, talvez não! Talvez seja esta a minha missão na Terra. Mas fará sentido? Uma missão da qual não me lembro ou me vou lembrar?!
Não deixei de ser quem sou, mas estou tão diferente que não me reconheço ou... não me lembro!
Aponto tudo certinho num caderno que dei o nome de Livro das Memórias, mas de que me serve se ao ler não me vou recordar de quando ou como foi que aconteceu?! É um pedaço de mim que ali está... e se não houver um pedaço de ti, ficará mais difícil de lembrar... mas sei que sempre estarás. E, no dia em que já nada reconhecer, chamar-te-ei de "Meu amor" e vou-te ver chorar, de alegria, de nostalgia (?), não sei... mas assim que te vir a derramar a água do nosso grande amor pela tua face, terei a certeza de quem és e quanto me fizeste feliz.

Filipe Tiago Araújo, 19.05.2016