terça-feira, 17 de março de 2020

Celebrar a vida

Essa força natural - de pouca natureza - de escrever, consome-me.
O tempo levou-me as palavras tristes que o meu coração implorava para escrever. Contudo, nem sempre de vazio se enche a alma... O coração iluminou-se, na alma fez-se luz branca... de paz, de felicidade, esperança e trilho.
Nasceu sol na escuridão, no percurso cinzento que o rumo da vida escolheu para mim. Alguns, chamam-lhe destino, eu chamo-lhe a minha fé.
Colmata-se - com a ausência dos que partiram - de coração cheio aqueles que vêm de novo, que vêm de bem e para o bem.
A vida é feita de incertezas, sendo a única certeza a morte. Enquanto ela não chega, esperando eu que venha muito tarde, usufruo do seu brilho, do amor que cultivamos, do amor que tu me dás.
No dia em que Portugal ganhou todas as Nações, a 9 de Junho de 2019, na cidade do Porto... Essa cidade que tanto amo e sinto... devolveu-me o amor.
O Porto é, de facto, a cidade de todos os sonhos e todos os encontros... e o meu, fez-se contigo! Jardins do Palácio afora, ruas despidas de gente, de olhos postos nos ecrãs e nós a caminhar para a felicidade, num dia que se tornou épico por tudo o que o envolveu.
Entretanto, passaram nove meses...
Estamos cá, de pedra e cal. Pelo meio, alguns dissabores... a perda, o romper de laços e agora os dias que estão a mudar as nossas vidas, por esta pandemia.
Estamos cá para viver estes novos tempos de mudança que estão a fazer com que a vida seja vista com outros olhos... e isso, estamos a viver juntos e juntos assim será para o futuro.

Filipe Tiago Araújo, 17.03.2020

sexta-feira, 10 de maio de 2019

O sentido da vida

O problema sempre foi vivê-la, apenas... um e outro dia, durante longos anos.
Igual... sempre muito igual... ainda que a rotina se quebre de quando em vez, não a sentimos! Vivêmo-la, apenas...
Conhecemos - de cor - o que as quatro estações do ano nos trazem... No entanto, não somos capazes de desfrutar do frio e da chuva que o Inverno nos dá. Gozamos o sol do Verão sem o sentirmos, assim como a brisa que, ao de leve, nos suaviza o calor na pele mas que ajuda a queimar... vivêmo-lo, apenas...
Não temos por hábito escutar o silêncio e, muitas vezes na solidão do nosso quarto, ele está lá e nós vivêmo-lo sem nunca o sentir... vivêmo-lo, apenas...
A gargalhada, por exemplo... rimos por algo que vemos, por experiências engraçadas que temos... rimos porque faz bem rir. Deveríamos rir mais vezes! Rir com emoção... rir de felicidade, de algo bom que nos deram... um presente, um abraço, uma palavra bonita, um sorriso... sentir, ao invés de viver o momento.
Banalizamos a palavra "Amo-te!" todos os dias... sem verdadeiramente a sentirmos muitas das vezes. Banalizamos porque, por vezes, vivemos momentos intensos mas que na verdade nunca foram de amor, senão de carinho. "Amo-te!" diz-se sentindo, com um brilho nos olhos e "borboletas" na barriga, nunca deixando as pernas de tremerem. E, como vivemos o amor tão raramente, só sentimos quando já não o temos... vivêmo-lo, apenas...
A vida, por vezes, prega-nos partidas... vivêmo-la tanto que nos esquecemos de senti-la... e, a vida, é isso mesmo... apenas sentir!
Dar aquele abraço sentido quando os olhos que te olham te imploram por um... Dar aquele beijo quando aqueles lábios te rogam por um... Chorar, quando o teu coração pede para quebrares... é preciso sentir o coração... não serve apenas para viver... é um modo de sentir!
E assim é a vida... algo que vivemos e poucas vezes sentimos.
Nunca te esqueças que a palavra "Saudade" existe por causa da lacuna entre o se viver e o se sentir... Viveste com aquela pessoa que agora partiu e sentes a falta... devias ter sentido a vida para mudares pensamentos... para, realmente, viver! Porque vida é isso, sentir.


Filipe Tiago Araújo, 10.05.2019 

segunda-feira, 18 de março de 2019

O Disfarce

Todos os dias se vestia de alegria e sorrisos, mas a nu, a realidade estava mesmo despida, cinzenta, de olhos vazios.

A tristeza interior, escondida, obscura e doente dava a vida a uma superfície de uma cara lavada, límpida e alegre... Rindo, fazendo rir e sangrando por dentro. O grito dado no silêncio da alma passa a alegria ao visível da pele.

Talvez a escuridão seja tão imensa... e a necessidade de ver os outros felizes seja a sua felicidade. A sua missão da vida?! Respostas de filosofia... incompletas, inacabadas, sempre com mais perguntas.

O chão fugiu por debaixo dos pés! Descalço, à toa, procurando o norte, na falésia interior.

Tudo tem um propósito... aprendizagem o meu?! Aprender, até aprendi mas já não dá para reparar.

Agora resta digerir, dirigir e ir travando para que nada se acelere até ao último troço da estrada.
Viver conforme sempre vivi... vivendo mas sem já estar vivo.

Filipe Tiago Araújo, 18.03.2019

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Histórias da minha história

Hoje, dei por mim a pensar… Numa conversa de amizade, tarde de outono, ruas do Porto e tantos anos depois ainda falo em ti como da primeira vez se tratasse!
A conversa andou sempre em torno de amores e desamores, algo que me custa falar, pelo distanciamento, pela frieza e pela proteção em volta do meu coração.
Dou por mim a falar de ti, desbragadamente… com o orgulho de sempre, como se continuasses a fazer parte de mim… na verdade, fazes. Nunca deixaste de o fazer! 
Sinto que quando começo a falar em ti, o faço com tanto entusiasmo e amor que me esqueço que já não estás aqui comigo há mais de 9 anos, creio. Divago nas nossas memórias, de imagens de um álbum feito por ti, de momentos a dois, a solo e até com o Simba o "nosso" gato da altura.
Hoje, vivo contigo no coração… sem dar a hipótese a outro alguém de entrar.
Entretanto, o tempo vai passando, a minha barba já começa a ceder à maturidade, com pelos a branco, com o desgaste do tempo. Começa tudo a regredir, a ponto de sermos uns bebés na velhice… mas há algo que fica intacto, permanente, faz estrago mas que sabe bem… e, isso, é o amor que sinto por ti.
O abraço, sempre que te vejo, é o primeiro de todos, igual ao da Rua Miguel Bombarda, onde corri desalmadamente para te abraçar pela primeira vez. O toque, intenso e bruto, como tu… mas bom. Acompanhado pelo teu olhar doce, a contracenar com a tua força bruta, vem o quente dos teus lábios… que saudades!!!
Numa tarde em que se falou de amor, os meus olhos brilharam ao falar de ti, uma vez… como sempre, para sempre.
Manipulei a conversa para me sentir junto a ti, a navegar pelas memórias ricas em carinhos que tu sempre me deste. Talvez seja carência o que sinto nesta noite, talvez seja saudade, talvez seja… amor.
Estás comigo… hoje e sempre!
Saudades…

Filipe Tiago Araújo, 25.10.2018

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Ordem e Sucesso

Na mão, um cravo seguro
Agarrando a liberdade
Pensando no futuro
Do passado, nem saudade!

Portugal de encantos
De simpatia e trabalho
País de prantos
Dos braços, um agasalho

Fado prós ouvidos
Musica pró coração
Portugal de sentidos
Alma, tristeza, devoção

Ronaldo, grito de golo
Mourinho, o Especial
Éder, que me deixou tolo
Amália, símbolo nacional

Não esquecendo o passado
De ditadura e fascismo
Dum país arrasado
Sem horizontes, com pessimismo

Sem medo de avançar,
Caminhou valente
Derrotando Salazar
Com um cravo comovente

"25 de Abril, sempre!
Fascismo nunca mais!"
Gritou o povo, ciente
Dando corda aos pedais.

Salgueiro Maia abriu o caminho
À meia noite, "E Depois do Adeus"
Portugal caminha sozinho
Pelo próprio pé e dos seus

Da arma, saiu uma flor
Símbolo de esperança
Portugal, o meu amor
De honestidade e confiança

"Grândola Vila Morena"
Canção já nada censurada
Hino de uma comunidade pequena
De um povo, duma armada

Armada portuguesa essa
Que, contra os canhões seguirá marchando
Na literatura de Camões e Eça
Sempre a escrever, poetizando.

Filipe Tiago Araújo, 17.10.2017


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O Barco

A tempestade parece ter passado…
O mar está calmo, longe da agitação de outrora.
Valeu a pena ter remado?
Vale sempre a pena, ora!

Ainda assim, a incerteza.
Parado no meio do oceano,
Dou comigo na delicadeza
das teclas de um piano.

A direção a ir, onde está?
Navego ao sabor do vento e da corrente…
Perdi o Norte, já.
Vou para o sol poente.

Com o remo na mão mas sem nunca remar.
Vontade de ir mas sem nunca chegar…

Lá ao fundo, o horizonte
Divide o sol pela metade.
Em ti, busco a fonte
Para a minha felicidade.

O mar não corre…
A corrente está fraca,
A esperança, lentamente, morre
Como o rasgar de uma faca.

Não consigo remar sozinho,
Quero pés assentes no chão!
Quero que me abras o caminho…
Quero que segures a minha mão.

Se não quiseres caminhar,
Entra neste modesto barco.
Seremos dois a remar,
Dois a sair deste charco.

O mar que sempre foi turvo,
De águas gélidas e fortes…
Perante ti, me curvo
Quero que meu respeito, por ti, notes.

Viaja comigo sem destino,
Neste barco modesto a remo.
Comecemos algo pequenino…
Vem comigo, leva-me ao extremo!

Deixa o mar ganhar ondulação…
Como a vida com obstáculos.
Anda sentir o meu coração,
Preso a ti com tentáculos.

Um polvo de emoções
Nesta praia deserta
Onde dois corações
podem amar pela certa.

Diz-me se vens comigo a alto mar!
Preciso da certeza das tuas incertezas…
Sem ti, não há como remar.
Perdido, sem rumo, nessas represas.

Esperarei…
Com âncora atracada.
Que tua palavra seja lei
para dar uma última remada.

Filipe Tiago Araújo, 31.08.2018




quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Um pequeno passo para o Homem...

Cansado… das horas já altas, do tempo, de ti.
Sim! Estou cansado de te trazer comigo todo este tempo, quando na verdade deveria ter-te deixado no lugar, no espaço, na tua vez de ficares para trás. É uma vida inteira a carregar-te, impedindo-me de ser feliz, de te pensar.
Acho que nunca fui forte o suficiente para libertar as amarras de um pensamento frágil… estou pronto para seguir sem ti.
Ele apareceu! Fez-se presente, com vontade de se tornar futuro, chegou e disse: "Vim para ficar!".
Batalhou fazendo-me batalhar, derrubar-te já não me custa, já não dói… foi fácil ficares lá trás e não me deixares ficar contigo, pois então será fácil deixar-te no lugar onde ficaste e não te carregar mais às costas.
Ao longe, vejo-o comigo… a ele, ao que me fez respirar puro de novo.
Perdi várias batalhas mas, finalmente, venci a guerra. Essa batalha final de muitas noites mal dormidas, de solidão, tristeza e nostalgia agora terminou.
Novos horizontes, duma luta sã, se avizinham. Conquistar o presente, viver o futuro, felicidade e consumação… novos sorrisos, outro brilho nos olhos e um coração à flor da pele.
Aquele "bichinho" cá dentro de quando esperas a tal mensagem a querer saber de ti, a preocupar-se, a gostar. Deslumbro? Ilusão? todas essas incertezas fazem parte da certeza de que algo mudou… cíclico mas de novos ventos, outros rumos e um frágil sentir dum coração renovado a bater.
Noutras alturas tinha medo de te tocar, sabendo eu que iria reagir de impulso da ferida já sarada cá dentro. Hoje, estou orgulhosamente, a deixar-te onde deves ficar, sem nunca te apagar mas com muita vontade de não te pensar… Adeus, Passado!

Filipe Tiago Araújo, 29.08.2018 pelas 2:22h